18.11.09


os bixinhos, felizes,
ao som do meu jazz

eu vôo, sozinho
em volta da luz

6.10.09

Cantos de Jazz

De paredes de portas, cimento com madeiras, o breu ilumina lentamente a pouca claridade. Respira fundo, no fundo; sentadas pernas envergonhadas batendo convivem com mãos desajeitadas e quadris, dançam, caminham; garçons e garçonetes, dancervem, drinks dançantes; cores em todo canto.

Ao fim da semana, cansados, homens e mulheres procuram abrigo nos bares da cidade; cachaça, sinuca, vinho, cerveja, azeitona, futebol, cada canto no seu qual – mas apenas um lugar respira, vivo; no fundo da esquina de um estacionamento pequeno, lugar suspeito, um sorriso de cheshire e chapéu á porta. Um corredor em que se ouve o sussurro dos instrumentos despertando, a luz garoa em cantos, arte nas paredes do lugar; evaporam sons que sobem e brilha o céu.

Estas noites, ah noites de jazz, não acabem mais!

Enquanto a noite não começa, os músicos afinam; pérolas aos poucos, quase ninguém, casais apaixonados, solitários, a noite ainda borbulha quando o DJ tenta suprir a vontade. Algumas cervejas, meias horas, abraços, e sobe ao palco, um a um, a banda completa. Power trio; quinteto; quarteto; capela; septeto; o que for! Sobe e enlaça como a bois o público que conversa; alguém apresenta, nome e instrumento seqüencialmente, e começa a transa.

O cordão d’água do contrabaixo que puxa o som salgado da bateria; os metais cortam suavemente a fumaça da caixa; o piano só prepara seu feitiço pra hora certa - a boa música te ensina a dançar na hora, eterna parceira. Nesse momento, aos poucos começam a respirar – depois de dias segurando o fôlego, as paredes de borracha.

Em toda parte da cidade, pessoas dormem nos restaurantes, baladas, festas; estáticos corpos em pancadões e bambas pagodes: só nos cantos escuros em que soam os velhos jazz e blues é que há vida, é que se pode viver.

Assim então, fervendo nesse denso caldeirão, segue a noite musical, transcorrem as horas, para começar uma nova semana de espera, cinza na cidade que chove – pede música o céu.

21.9.09

Seu beijo de uva





Livres partículas brancas suspensas na minha água que não sei explicar. Acho que foi a sujeira da cumbuca. Deixei no canto pra jogar fora depois...

Sabe que hoje eu conversava com um amigo sobre a pessoa, o ser humano. Ele disse que não dá par ter um relacionamento, Não sei o que eu quero, to meio confuso. Eu sei o que eu quero, só não existe, e ele, É um unicórnio?

Dei um sorriso.

Fiquei pensando depois nisso, sabe? Tinha um garoto que era interessante mas eu nunca ficaria a fim - e porque não dava? Não era o meu tipo físico? Não sei...acho que unicórnio foi uma piada mesmo.

Estava correndo e chovia, e ventava também, meu ônibus estava passando e eu do outro lado da rua; odeio quando isso acontece. E acontece.

Atravessei e sentei, olhando os carros encostei a cabeça e fui pensando, na verdade não tava pensando em nada específico, mas nessas horas um pensamento vem que nem a bóia sobe repentinamente pelo empuxo na piscina: é que nem chocolate – tudo pra mim era que nem chocolate; ou era que nem chocolate ou era um jogo, tudo.

Você come todo dia, mas às vezes dá vontade de arroz feijão com fritas. Acho que isso explica muita coisa na verdade...apesar de arroz feijão com fritas ser algo meio sem graça.

Abruptamente meus olhos fecharam, a cabeça inclinou para frente quando foi suspensa pelo pescoço e me levantei num susto; estava no ponto ainda. Minha perna doía, cãibra. Esticava, apertava, doía mais – acho que eu nunca senti cãibra, não sei identificar direito.

Creio ter mentido sem querer, agora pensei. O ônibus veio e eu fui sentado, ouvindo musica. Incrível, nunca vou deixar de reparar no belo lençol de água descendo. Infinitos pontos formando linhas; infinitas linhas formando planos e o espaço geral – na minha mente todas dimensões.

Dormi mas acordei no ponto certo e cheguei bem em casa, meio úmido. Tomei garoa no caminho, um pouco. Só não sei porque eu disse que sei o que eu quero; eu não sei. Será que ele também mentiu e sabe? Seilá.

Então agora levei meu copo d’água pra cozinha, joguei na pia, tinha um bolo em cima do fogão. E foi nesse bolo que eu parei, olhei; mergulhei no bolo macio, no cheiro de quente e de doce, de casa da minha vó quando criança e eu pedia pra tomar leite com açúcar que só ela sabia fazer. Aquelas cosias de avó, nem precisa dizer.

Foi ali que eu passei a noite, na cama em bolo de iogurte, e só acordei amanhã, não muito cedo, numa eureca – sonhei com unicórnio; aquele bolo de uva italiana, docinha, macio, que eu comia quando era pequeno, é o que eu procuro em alguém, o gosto do beijo que eu quero ter.

23.8.09

vidaborto

Parado no chuveiro, penso

em pé, com meus botões


Fito as gotas

reflito

espero


Passo o dia todo, dilema

ônibus, trem, metrô


Fito a parede

me viro

encosto


Na barriga, antes de nascer

passo a vida toda

27.7.09

A Verdade

mais brilho, mais contraste
curvas bem acentuadas,
dos personagens

um tom alaranjado, sombra
em todo cômodo estreito,
baixos tetos

nas falas comovidas, gestos.
na transparente lágrima,
mãos, queixo

cada relacionamento tem sua dose,
com amor calculada,
de mentira

19.7.09

carta à minha mente




O infinito vazio que se dilata, mesmo que abstrato, faz desabar minhas mãos. Contemplo abismado em que minha vida se transformou. Já deixei para trás essas questões. Há meses parei de me perguntar o que significava amor. A resposta não era mais preocupante. Entretanto, venho sentindo de volta os velhos “sintomas”.
Quando chega a madrugada, e perambulo pela casa, abro a geladeira cheia e não pego nada, tomo um copo d’água, ouço uma música. Uma vez que isso ocorra, passa despercebido, mas não é fácil esquecer uma “doença” dessas. Umas cinco, seis da manhã, vou dormir, difícil concentrar em alguma coisa, difícil dormir; às vezes a luz do sol já invade o quarto, fico dias suspenso naquelas partículas. Que pode ser isso!?
O dia seguinte é como uma névoa fina, quando abro os olhos, miro o teto, os livros, a roupa jogada no chão. Imóvel. Só há um pensamento, enquanto tomo banho, levanto, tomo café, me troco, enquanto ando, sento, espero o ônibus. O tempo todo, meus olhos no horizonte, não lembro o que conversei com ninguém; apenas passa pela minha cabeça algo que eu não identifico bem, disforme.
E nessa madrugada foi assim: sentado aqui, em frente ao meu computador. Levantei pra pegar uma gelatina, que surpresa! Quando abri a geladeira, quem estava lá dentro era você! É, por sinal, quem estava no armário com o creme de leite, no banheiro, copa, pia, em todo lugar, todo o dia. Em mim, todo o dia, e eu nem percebi!
Então sentei aqui e escrevi esse aviso: se afaste de mim! Já sei o final desta peça. Já assisti a ela, li o roteiro, dirigi, encenei os papéis coadjuvantes e o principal. Quando não tem ninguém na minha vida, ela assustadoramente tem um sentido, lógico, racional, que todos julgam mal, mas eu não me importo. Se você, entretanto, aparece de mala e cuia, e nem vem em carne e osso, só pra ficar nas minhas costas....



Não vou viver como um zumbi. O primeiro pedido é pacífico, o segundo não será um pedido, será uma ordem. O terceiro, uma fuga.

23.12.08




Ainda não tinha se decidido se a natureza é ou não independente dos homens. Estava parado no vão do MASP, olhando lá pra baixo, pensando nessas coisas, quando uma garota chegou perguntando se ele tinha baseado. Não tinha. Dali a pouco ela voltou com um bolado e fumaram juntos. Isso era umas sete horas, e o sol já tinha baixado quase totalmente; já estava chegando o pessoal com violão e pandeiro, tocando e dançando. Começou a bater uma brisa, ele estava sentado no muro; como tudo girava, ficou com medo de cair, mas demorou alguns minutos até ter a idéia de descer. Sentou no chão mesmo, ficou olhando o movimento. A garota continuava falando sobre o ser-no-outro, como num boteco, quando o rapaz levantou e foi andando sentido Brigadeiro.

Havia luzes de natal espalhadas pela avenida e pessoas entrevistando os transeuntes, carros paravam pra ver as luzes e alguns caras do hare krishna pediam colaboração. O céu estava muito bonito, pelo menos daqui de baixo estava, e pintou a dúvida se estaria também lá de cima, então as coisas, que ainda giravam, não passaram o farol vermelho, e ele atravessou a rua numa boa.




Lembrou de uma música dos Secos e Molhados que diz “nos fios tensos, da pauta de metal, as andorinhas gritam, na falta de uma clave de sol”. A Paulista não tem pauta nem música, só barulho. As pombas ficam nas janelas ou no vão do MASP. Também não há clave de sol, nada.

Seguiu em frente, chegou no SESC Paulista, tinha música ao vivo hoje. Subiu até o terraço lá em cima: foi subindo, devagar, a velocidade relativa voltava a zero, as coisas não giravam mais. Lá em cima pediu uma cerveja, comprou um maço de cigarros, sentou numa mesa no terraço e ficou ouvindo e olhando o céu. Em todos os livros que lia, alguém olhava pro céu e fazia os mais extraordinários devaneios, mas ele não conseguia fazer mais que ficar olhando o vazio.

Vazio é uma coisa legal, é o espaço e o copo de cerveja, ficava na sua cabeça e dava pra sentir no corpo todo se ele se concentrasse. Na cabeça dele o nada era como um espaço branco com várias retas que, mesmo não sendo paralelas, nunca cruzavam, e não adquiriam forma alguma, só as retas que não significavam nada, e como o nada não acaba, havia tantas e, mesmo assim, elas nunca cruzavam. E alguns pontos também.

Dava pra ver algumas estrelas, já era oito e meia, e ele se perguntava como os astrônomos conseguem distinguir tantos pontos tão parecidos analisando apenas seu espectro, sua cor, a velocidade com que piscam... Formar constelações; não dá pra imaginar. Provavelmente ele nunca teria a paciência de Heparco para nomear uma a uma.

Olhou lá pra baixo; estrelas.

No bar tinha música ao vivo. Entendeu porque as andorinhas gritam, desesperadamente – ele ficava imaginando vários pássaros brancos, pois não sabia como era exatamente uma andorinha, se esgoelando e imóveis em cabos pretos, numa estrada perdida no meio do nada. Também estava assim quando subiu no canteiro e se aproximou da borda. Provavelmente um segurança veio intervir, mas não sei, foi tudo bem rápido, o vento da noite veio levá-lo. Caiu no meio da avenida; um berro, na falta de uma clave de sol.