12.3.11

a outra parte disso tudo

era um sentimento. ou ainda é, mas como o fato é passado, vamos usar 'era', ou foi um sentimento. só que não me agrada muito escrever sobre sentimentos, isso porque não há uma transformação linear bijetiva entre eles e as palavras, como se tivesse que traduzir um poema pra libras, de modo que parar isso seria preciso pequenas mudanças, adaptações, verdadeiros estupros da realidade, e o resultado seria uma verdade mentira, uma deturpação.

para quem ainda não experimentou essa sensação, e tiver curiosidade, basta discutir com a namorada ou namorado, pois eles têm essa habilidade de distorcer totalmente o que falamos, então depois de dizer algo simples e ver uma tempestade se aproximando, você entenderá um pouco porque eu realmente me sinto mal falando de sentimentos, que por mim esta palavra não estava nem no dicionário.

entretanto, alguns pensamentos me levam a crer que de modo intuitivo há um meio de chegar lá, pois descrevendo os fatos, todas as aulas a que não fui semestre passado, os cinco ou seis amigos com que briguei, as três matérias que reprovei e a quase decisão de largar a faculdade, consigo sem citar um sentimento sequer deixar claro uma sensação. e poderia avançar nisso, descrevendo pequenas cenas para melhor compreensão, como num romance ou novela, e não precisaria usar palavras toscas como tristeza, depressão, amargura nem nada disso, pois essas palavras não me representam, nunca me tocaram e não passam perto da questão real - se é que mesmo eu já passei perto da questão real, que suponho existir.

e posso seguir com isso, pois a outra parte foi justamente a minha súbita ida a todas as aulas, e como voltei a ler, estudar, ir a shows, conversar com os outros e tudo o mais. não foi uma doença, obviamente, que acometeu, e logicamente o modo como tenho visto as coisas de modo mais preciso e simples faz parecer que é assim que tudo é - parece que na ciência há essa visão de que se duas teorias descrevem igualmente bem um fenômeno, será tido como certa a mais simples delas.


enfim, fato é que essas duas partes descrevem, juntas, o que há comigo. não achei uma palavra pra isso, e pra ser sincero nem tenho procurado; apesar de adorar obras de arte, dessa vez decidi deixar as coisas
só escorrem

um pouco

da minha cabeça.

1 palpites:

Antonio disse...

A palavra seria... ambiguidade? Ambivalência? Isso é humano, demasiado humano.